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terça-feira, 22 de junho de 2010

Oswaldo Goeldi

Oswaldo Goeldi






Oswaldo Goeldi (Rio de Janeiro RJ 1895 - idem 1961). Gravador, desenhista, ilustrador, professor. Filho do cientista suíço Emílio Augusto Goeldi. Com apenas 1 ano de idade, muda-se com a família para Belém, Pará, onde vivem até 1905, quando se transferem para Berna, Suíça. Aos 20 anos ingressa no curso de engenharia da Escola Politécnica, em Zurique, mas não o conclui. Em 1917, matricula-se na Ecole des Arts et Métiers [Escola de Artes e Ofícios], em Genebra, porém abandona o curso por julgá-lo demasiado acadêmico. A seguir, passa a ter aulas no ateliê dos artistas Serge Pahnke (1875 - 1950) e Henri van Muyden (1860 - s.d.). No mesmo ano, realiza a primeira exposição individual, em Berna, na Galeria Wyss, quando conhece a obra de Alfred Kubin (1877 - 1959), sua grande influência artística, com quem se corresponde por vários anos. Em 1919, fixa-se no Rio de Janeiro e passa a trabalhar como ilustrador nas revistas Para Todos, Leitura Para Todos e Ilustração Brasileira. Dois anos depois, realiza sua primeira individual no Brasil, no saguão do Liceu de Artes e Ofícios. Em 1923, conhece Ricardo Bampi, que o inicia na xilogravura. Na década de 1930, lança o álbum 10 Gravuras em Madeira de Oswaldo Goeldi, com introdução de Manuel Bandeira (1886 - 1968), faz desenhos e gravuras para periódicos e livros, como Cobra Norato, de Raul Bopp (1898 - 1984), publicado em 1937, com suas primeiras xilogravuras coloridas. Em 1941, trabalha na ilustração das Obras Completas de Dostoievski, publicadas pela Editora José Olympio. Em 1952, inicia a carreira de professor, na Escolinha de Arte do Brasil, e, em 1955, torna-se professor da Escola Nacional de Belas Artes - Enba, no Rio de Janeiro, onde abre uma oficina de xilogravura. Em 1995, o Centro Cultural Banco do Brasil realiza exposição comemorativa do centenário do seu nascimento, no Rio de Janeiro.
Fonte: http://www.itaucultural.org.br/aplicExternas/enciclopedia_IC/index.cfm?fuseaction=artistas_biografia&cd_verbete=2961

BIENAIS:

1ª (1951), 2ª (1953), 3ª (1955), 6ª (1961), 10ª (1969), 11ª (1971), 15ª (1979), 18ª (1985), 19ª (1987) e 24ª Bienais (1998)
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Nas imagens urbanas criadas por Oswaldo Goeldi há uma atmosfera de solidão profunda. Figuras humanas se perdem em ruas, becos e praças mal iluminadas de cidades indiferentes à presença de cada um. Há também em suas gravuras uma atmosfera dominada pelo escuro, só rompido pela luz branca filtrada ou por pequenas superfícies de cor. Em seu imaginário, pescadores, peixes e o mar protagonizam cenas que denotam uma solidão profunda. Suas xilogravuras são emblemáticas do conflito do ser humano e uma das melhores tradições da arte brasileira. Os trabalhos de Goeldi estiveram presentes na Bienal de São Paulo, em quase todas as décadas sendo um dos mais expostos, em toda a história da mostra paulista.
TEXTOS CRÍTICOS:
"A experiência européia não lhe deixou terminar a experiência brasileira. Talvez até a perturbasse. Ambas entraram porém na composição de sua arte, dando universalidade humana e pungente.
Seu olhar para as coisas vai carregado de tão intensa força subjetiva que logo as transforma em visão. Visão quase sempre trágica. A imagem cotidiana mais comum - uma esquina de rua, um objeto, alguém passando - Goeldi a transforma em misteriosa presença. O que descobre em cada coisa é a sua substância de poesia, velada pelo automatismo de nossa percepção habitual. Não dispondo de tintas para a expressão pictórica de suas criações, tem que jogar apenas com as linhas, os valores do claro-escuro, as vibrações do traço, e o ritmo das formas. Apenas excepcionalmente emprega a cor nas gravuras, como no Pescador e nas ilustrações de Cobra Norato, poema de Raul Bopp.
Abrindo claridade nas massas de sombra e conduzindo as correntes atmosféricas do céu, graças a milhares de traços miúdos e riscos convergentes que sugerem as direções do vento e da luz - ele atinge graficamente um poder de evocar formas e ambientes que não conseguiria com a pintura. O sensualismo e a musicalidade da cor não se ajustariam ao seu temperamento crispado. Em compensação, o que consegue com o claro-escuro e o traço permite-lhe fixar certos aspectos intraduzíveis por outros meios plásticos.
O conteúdo principal das coisas visíveis encontra-se no mundo invísivel de que elas são ao mesmo tempo o sinal e a projeção incompleta. Está atrás. Pelo menos um artista como Goeldi, habituado a decifrar o ilegível das profundezas que as aparências recobrem. Para ele, a arte abstrata não tem razão de ser; é preciso criar formas novas; basta elevar ao plano visionário as que já existem, cercando-as de uma auréola de poesia em que perdem a opacidade e entregam o seu mistério.
Mas não é unicamente sob a incidência de tal ou qual luz poética que as coisas irradiam melhor e adquirem valor de símbolo; também pela vizinhança que se lhes dá, pela maneira com que são dispostas na obra de arte. Dir-se-ia que as formas procuram avistar-se com aquelas que vivem separadas. O famoso 'encontro fortuito na mesa de dissecação de uma máquina de costura com um guarda-chuva' (Lautréamont) reproduz-se indefinidamente na natureza entre objetos-personagens, distribuídos em caprichosa formação."
Anibal Machado
MACHADO, Aníbal. Goeldi. In: MATRIZES do expressionismo no Brasil: Abramo, Goeldi e Segall. Texto Tadeu Chiarelli; Aníbal Machado; Sônia Salzstein. São Paulo: MAM, 2000. 87 p., il. color.
"Abandono e esquecimento formam o eixo do trabalho de Goeldi; latas derrubadas, cães vadios, móveis ao relento. No entanto, pelo fato mesmo de não serem lembradas, as coisas parecem aqui ainda preservadas da mesquinhez, cheias de mistério e de potência. Aquilo que foi deixado de lado está inteiro, pronto para ser acionado, e o vento que bafeja essas gravuras quer acordar os homens, bichos, lugares, chamando-os à vida. Sua afeição, no entanto, não pode ter a solidez e clareza objetiva de quem os esqueceu. Daí o crepúsculo contínuo e sempre renovado desses trabalhos.
(...) No entanto, encantamento e suspensão caracterizam também essas gravuras e desenhos. Isso vem, creio, da intensa analogia formal entre seus elementos. Cheios são vazios, casas são ruas, urubus são guarda-chuvas, as janelas nos olham. Tudo é meio assemelhado a tudo, bafejado pelo mesmo sopro de vida, as formas ecoando discretamente umas nas outras, como se ainda não tivesse se formado de todo. Essa individuação incompleta faz grande parte da originalidade de Goeldi, e permite que as distorções expressionistas que o influenciaram abdiquem de seu desespero. O mundo de Goeldi é um mundo em suspensão, seus habitantes ainda despertam e se procuram, e se caminham para a morte o fazem solidariamente. Daí a calma de sua tristeza, onde abandono e comunhão convivem."
Nuno Ramos
RAMOS, Nuno. Para Goeldi.São Paulo: AS Studio,1996. p.17-18.
"A obra de Goeldi de fato impressiona pela amplitude e profundidade das questões que apresenta. Os homens que vagam pelas superfícies negras de suas gravuras não têm aonde ir, embora estejam sempre a caminho. São seres urbanos e mantêm com a cidade um contato estreito - partilham a sua 'cor', seu anonimato. Apenas uma estreita faixa os separa do ambiente em que se movem. E no entanto nada os acolhe. Curvados, eles precisam atravessar uma atmosfera espessa, que lhes dificulta os movimentos. Não enfrentam, porém, forças naturais. Seus pescadores, sim, se batem com ventos fortes e águas traiçoeiras. E esse confronto primitivo - em que as figuras humanas são, em geral, maiores do que as cenas urbanas - a meu ver reduz a atualidade e o drama de muitas obras de Goeldi. Já os habitantes das cidades construíram espaços que eles mesmos não reconhecem.(...)
A atração de Goeldi por figuras marginais e trabalhadores rudes adquire então um novo sentido. Bêbados, miseráveis, pescadores e prostitutas mantêm com a vida uma relação mais autêntica. O que os engrandece não é só uma recusa à lógica do lucro, com sua hipocrisia e violência. Em sua precariedade, levam uma vida que não oculta a fragilidade humana. Um forte moralismo marca sua visão de mundo. Como todos os expressionistas - categoria em que não se encaixa facilmente -, Goeldi opõe uma altivez torturada e íntegra à adesão irrestrita a valores corrompidos. Não parece, porém, elevar a arte - uma sensiblidade mais genuína - à condição de paradigma. À maneira de suas personagens, deixa as mazelas cotidianas penetrarem seu mundo. Suas formas instáveis, dispersas, não resultam do confronto de uma subjetividade superior com as agruras da vida. Revelam antes uma corrosão a que ninguém escapa."
Rodrigo Naves
NAVES, Rodrigo. Goeldi. São Paulo: Cosac & Naify, 1999. p. 7-10. (Espaço da arte brasileira).
"Enquanto a gravura de Segall exprime a emoção, e mais a dor que a alegria, a de Oswaldo Goeldi não a prescreve, pois seu impulso é a 'necessidade interior', expressa no desenho e na xilogravura, à qual se dedica mais que às outras técnicas gráficas. É fundamental que a necessidade interior preexista à forma, como o informe aberto 'àquilo', à determinação que a satisfaz. Comparando-se o processo enumerativo nas descrições escritas e nas descrições gravadas de Goeldi, vê-se que elas não só coincidem como contemplação que ultrapassa as diferenças da escritura e da arte, mas também insistem em que a cena desintensifica o movimento físico e anímico das personagens: é na suspensão que se revela 'aquilo'. A suspensão inscreve, atenuante, a emoção na cena: por isso, Goeldi não é gesticulante em suas visões, o que não se pode dizer de muitas de suas ilustrações, nas quais os movimentos do corpo e da alma, estando prescritos pelo texto, predeterminam-lhe a vidência e impedem que a noite domine, suspensiva.
Na gravura de Goeldi, a suspensão, que ilumina solidão e solitários, é a noite profunda e vulturina, que nele visionam Alfred Kubin e Carlos Drummond de Andrade. Nada sendo dito, a cena interdita gesticulação, pois os corpos pendem, mesmo quando caminhantes. Não havendo diferença entre figura e fundo, entre seres e lugares, não há separação gráfica entre cenografia e corpos, mas indissolubilidade, de sorte que o próprio cenário se determina pelas personagens, cruzamento que pode fazer o mudo muito significar e o muito significante emudecer. Essa duplicidade na gravura torna o cenário semblante, pondo-se, subitamente, o casario a olhar, assombrando o passante noturno, anjo, bêbado, outro, nunca individualizado, nunca retratado. Na suspensão, surpreendem-se cenários e corpos a demonstrar que a necessidade interior se exprime.
Embora tenha feito algumas litografias na Europa, Goeldi começa a xilogravuras em 1923, ilustra livros nos anos 40 e 50, produz álbum em 1930 e, desde os anos 20, faz gravuras para periódicos, tornando-se conhecido por esta obra de muitos artistas e amadores. A gravura, como declara, surge nele como necessidade de disciplina, pois entende que seu desenho é divagante. As relações de desenho e gravura são, aliás, intricadas: Goeldi afirma que a gravura, por corretiva, é uma camisa-de-força da qual o artista se liberta pelo desenho, não se identificando, aqui, o desenho como fim em si mesmo e o desenho como instrumento, lançado e relançado pelo artista em sua lenta reflexão de gravador. É nesse horizonte, também, que a cor, a um tempo paixão e obstáculo, propõe-se: gráfica, ela nunca será estampagem."
Leon Kossovitch e Mayra Laudanna
KOSSOVITCH Leon; LAUDANNA, Mayra. A gravura moderna. In: GRAVURA: arte brasileira do século XX. Apresentação Ricardo Ribenboim; texto Leon Kossovitch, Mayra Laudanna, Ricardo Resende; fotografia da capa Romulo Fialdini. São Paulo: Itaú Cultural: Cosac & Naify, 2000. p. 5.
DEPOIMENTOS
"Eu moro aqui, ao lado do mar, na baía mais afastada do Rio, 'Praia de Ipanema-Leblon'. Das poucas casas que de vez em quando aparecem neste deserto de areia, pode-se ver quase que só os telhados. Ventos fortíssimos, chegando do mar, varrem estes desertos imensos e vazios, uivando e empurrando com força enormes nuvens de areia. Rangendo, lanternas dependuradas no alto dos postes são jogadas para lá e para cá, e os fios da rede elétrica, tensos até arrebentar, fazem um ruído ameaçador - o tilintar de vidros quebrados aumenta assustadoramente esta barulheira diabólica.
As gaivotas lutam, com toda a força de suas asas, contra estes ventos ferozes de tempestade - apesar do forte bater das asas não conseguem avançar nem um centímetro. Pegas pelo vento, numa evolução lateral, são atiradas como flechas por cima de uma superfície de mar revolto - as pontas das asas quase tocando as espumas das ondas.
Um lugar assim, caro Sr. Kubin, certamente iria lhe agradar. O mar é tão lindo na luz do sol, tão cristalino, que a gente sente o coração mais puro.
O quarto que aluguei tem uma porta e uma janela - a largura dele é a largura da casa. À noite, abrindo tudo, tenho a sensação de estar deitado debaixo de céu aberto."
Oswaldo Goeldi
Rio, 16 de dezembro de 1930
GOELDI, Oswaldo. Correspondência a Alfred Kubin (Rio, 16 / 12 / 1930). In: RIBEIRO, Noemi Silva (Org.). Oswaldo Goeldi:um auto-retrato. Rio de Janeiro: Centro Cultural Banco do Brasil, 1995. p.166.
"Os horizontes infinitos que se abriram para mim ao contemplar a abundância dos seus [Kubin] trabalhos - 1930 na minha tão curta visitinha a Wernstein - e as palavras bondosas que o senhor me dirigiu obrigam-me a ser-lhe eternamente grato. O que na ocasião me pareceu novo, nos seus trabalhos, era o comovente - a emoção que transmitem, ao contrário de outras criações, que nos agradam mais pelo seu alcance. Não sei se consegui me fazer entender. Foi uma experiência fortíssima para mim. Alguns dos trabalhos de Munch, e, principalmente, os desenhos de Van Gogh me falam intimamente. Nos trabalhos de Van Gogh sente-se o nervo exposto, dolorido, mas me agradam muito. Porém, ninguém tem como o senhor esta envergadura, esta riqueza; ninguém exprimiu tão fortemente o seu eu mais íntimo - isto eu digo sem entusiasmo cego."
Oswaldo Goeldi
Rio, 8 de maio de 1933
GOELDI, Oswaldo. Correspondência a Alfred Kubin (Rio, 8 / 05 / 1933). In: RIBEIRO, Noemi Silva (Org.). Oswaldo Goeldi:um auto-retrato. Organizacao Sérgio Laks. Rio de Janeiro: Centro Cultural Banco do Brasil, 1995. p.170.
"Só Deus sabe quantas vezes eu pensei no que será o 'dia-a-dia de Goeldi'. Que me contou do clima, do mato verde, das andanças noturnas, do vaguear diurno, de excitantes verduras e frutas tropicais, etc. Mas, na pequena folha que mostra uma mesinha na beira-mar, o senhor realizou uma coisa até agora nunca vista - está vindo 'aquilo' - a noite profunda - foi 'uma vida realizada'."
Última carta de Alfred Kubin a Oswaldo Goeldi
7 de janeiro de 1951
in Carta de Alfred Kubin a Oswaldo Goeldi, 7. jan.1951. in ZILIO, Carlos (org.). Oswaldo Goeldi: Rio de Janeiro: Solar Grandjean Montigny, [s.d.]. p.28.
OUTROS TEXTOS:
A GOELDI

De uma cidade vulturina
vieste a nós, trazendo
o ar de suas avenidas de assombro
onde vagabundos peixes esqueletos
rodopiam ou se postam em frente a casas inabitáveis
mas entupidas de tua coleção de segredos,
ó Goeldi: pesquisador da noite moral sob a noite física.
Ainda não desembarcaste de todo
e não desembarcarás nunca.
Exílio e memória porejam das madeiras
em que inflexivelmente penetras para extrair
o vitríolo das criaturas
condenadas ao mundo.
És metade sombra ou todo sombra?
Tuas relações com a luz como se tecem?
Amarias talvez, preto no preto,
fixar um novo sol, noturno; e denuncias
as diferentes espécies de treva
em que os objetos se elaboram:
a treva do entardecer e a da manhã;
a erosão do tempo no silêncio;
a irrealidade do real.
Estás sempre inspecionando
as nuvens e a direção dos ciclones,
Céu nublado, chuva incessante, atmosfera de chumbo
são elementos do teu reino
onde a morte de guarda-chuva
comanda
Poças de solidão, entre urubus.
Tão solitário, Goeldi! mas pressinto
no glauco reflexo furtivo
que lambe a canoa de teu pescador
e na tarja sanguínea a irromper, escândalo, de teus negrumes
uma dádiva de ti à vida.
Não sinistra,
mas violenta
e meiga
destas cores compõe-se a rosa em teu louvor.
Carlos Drummond de Andrade
ANDRADE, Carlos Drummond de. Carlos Drummond de Andrade:poesia e prosa. Introdução Afrânio Coutinho. 8.ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992. p. 278-27
Fonte: http://www.oswaldogoeldi.org.br/biografia.htm

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